sexta-feira, 2 janeiro 2026

Serra da Canastra além do queijo: turismo e gastronomia



Região oferece experiências com vinho, mel, própolis verde, cafés especiais e charcutaria

Legenda: Visitação à Fazenda Cariama – Foto: Karen Andrade / Divulgação

Vinho, mel, própolis verde, café especial, azeite de abacate, carne de lata. A Serra da Canastra não vive só de queijo. Empreendedores da região têm aperfeiçoado seus negócios e atrelado a atividade ao turismo, à gastronomia, à economia e ao agronegócio. Para isso, eles contam com o programa Check-In Minas do Sebrae, que qualifica os pequenos negócios, promove a inovação e estimula a competitividade.

Ao todo, mais de dez empreendedores de micro e pequenas empresas dos municípios de Capitólio, Delfinópolis, Piumhi, São Roque de Minas e Vargem Bonita participam do programa. Na primeira etapa, os consultores mapearam as potencialidades de cada território e identificaram elementos capazes de construir experiências autênticas, conectadas às histórias, aos saberes e à identidade local.

Na segunda etapa, consultores credenciados promoveram o mapeamento de “stakeholders” (todas as partes interessadas no negócio), realizaram um estudo de tendências, sensibilizaram o trade turístico, criaram uma precificação de produtos e desenvolveram experiências e estruturação de narrativas. As consultorias e atividades foram tanto presenciais como online, entre maio e dezembro deste ano.

A Serra da Canastra produz bons vinhos – Foto: Moradas da Serra / Divulgação

Leonardo Mól, gerente-geral do Sebrae da Regional Centro-Oeste e Sudeste de Minas, explica o desafio: “É uma Canastra além do queijo. Estamos criando uma estratégia de ‘marca guarda-chuva’ para incluir outros segmentos e produtos. Essa marca de território terá governança própria, que poderá ser utilizada pelas atividades fomentadas, focadas em charcutaria, cafés especiais, mel e vinho”.

A “marca guarda-chuva” (“umbrella branding”, em inglês) é uma estratégia de marketing em que o turismo é usado para sustentar outros produtos e serviços. Em maio, a convite do Sicoob Credicapi e do Sebrae Minas, um grupo de empreendedores fizeram visita técnica ao sul do Tirol, na Itália, para conhecer uma experiência bem-sucedida de “marca território”.

Todos terão regulamentação e padronização da produção para manter o mesmo DNA, independentemente de integrar uma área de Indicação Geográfica (IG) ou não. O turismo vai ser a marca propulsora. Essa organização inicial é fundamental para dar sustentação aos negócios. Estamos criando com esses empreendedores rotas turísticas acopladas ao ecoturismo, ao turismo náutico e à agroecologia”, diz.

Charcutaria 

Wagner Moraes na Charcutaria Sal de Engenho – Foto: Sebrae-MG / Divulgação

Três rotas rurais já se conectam a charcutaria, mel e café especial, oferecendo experiências aos visitantes. É o caso de Wagner Moraes, um dos primeiros produtores de charcutaria da Canastra e um dos integrantes da comitiva ao Tirol. “Lá, percebi como o produto artesanal é tratado com amor, responsabilidade e paciência. Cada peça carrega a alma do seu território. Voltei com outra mentalidade e o propósito de dar uma identidade à minha charcutaria”, frisa.

Ele e a esposa, Ana Flávia, são proprietários da Charcutaria Sal do Engenho, localizada na Fazenda Engenho de Serra, em Capitólio. Referência em charcutaria artesanal na região, a carne na lata é o carro-chefe da Engenho de Sal e faz sucesso entre os turistas. A embalagem com 900 g é vendida como lembrança de viagem, pois carrega o sabor e a história da Canastra. Eles produzem também linguiça caipira, torresmo, salame com mofo branco e presunto cru de picanha suína. O turista ainda pode acompanhar os processos de defumação, cura e fermentação na fazenda, além de participar de degustação guiada e combinada com geleias artesanais de mostarda, abacaxi e goiaba.

Moraes acredita que, assim como o queijo canastra, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a charcutaria pode se transformar em produto turístico de alto valor agregado.“A carne de lata é uma receita tradicional da minha família. Já possuímos o selo de inspeção municipal e estamos em busca de novos produtos para desenvolver nossa linha de produção. Acredito que, em pouco tempo, a Canastra não será lembrada somente pela qualidade do queijo, mas também da charcutaria”, confia.

Os produtos de charcutaria com a marca do Serjão – Foto: Sérgio de Paula Alves / Divulgação

Produtor de queijo canastra, Sérgio de Paula Alves, o “Serjão da Canastra”, é outro empreendedor que resolveu apostar na charcutaria. No Sítio Alvorada, em Piumhi, ele cria cerca de 40 porcos e os alimenta com soro do leite. Atualmente, ele produz salame de lombo maturado, mas o terreno também é promissor para produção de pastrami, salames especiais, copa, bacon e terrines.

No próximo ano, ele começa a produção em maior escala e deve iniciar os testes genéticos com porcos, com apoio do Sebrae, visando desenvolver “uma melhor raça para a Canastra”. Para formar novos produtores, um novo curso começa, em janeiro de 2026, com o mestre em charcutaria Edson Navarro. Com mais de 15 anos de vivência no mercado, ele também é o fundador da Curato Escola de Charcutaria Artesanal e um dos idealizadores da Associação Paulista de Charcutaria (Apac).

Cafés especiais

A Fazenda Cariama oferece visitação e integra a rota turística da Canastra – Foto: Karen Andrade / Divulgação

Mais consolidados, os cafés especiais já ganharam fama na Canastra. Paulo Henrique Guerra é um cafeicultor que vem de uma tradição familiar de mais de cinco décadas na cafeicultura e que agora está passando por um processo profundo de profissionalização da produção, com foco em qualidade sensorial, rentabilidade, manejo sustentável e valorização de origem. “Isso envolve desde a escolha criteriosa das variedades, práticas agronômicas mais precisas, colheita seletiva até protocolos rigorosos de pós-colheita e classificação sensorial”, resume. “Nosso terroir é uma somatória de regiões, pessoas e produtos”.

Para Guerra, a conexão entre café especial e turismo é natural. “O consumidor atual quer entender a origem do que consome, conhecer quem produz e como é produzido e qual é a história por trás do produto. Quando abrimos a fazenda para visitação, o café deixa de ser apenas um bebida e passa a ser uma vivência. O turismo ajuda a educar o consumidor, valorizar o produto local, fortalecer a economia regional e criar um círculo virtuoso onde qualidade, cultura e território caminham juntos”, descreve.

Paulo Guerra começou a receber turistas em setembro de 2024. Hoje, a Fazenda Cariama, em Piumhi, integra uma das três rotas da Canastra. O cafeicultor conta que no início ficou receoso: “Somos produtores de café, a gente nunca tinha trabalhado nessa vertente de turismo. Foi quando a gente começou a dar passos, engatinhar em direção a esse modelo de negócio. Desde então, já recebemos pessoas de dentro e fora do Brasil. E foi tão bom para nós que estamos construindo uma cafeteria experimental na propriedade”.

Mel e própolis verde 

A régua de degustação da Raízes da Canastra – Foto: Sebrae-MG / Diulgação

No caso do mel, empresários locais que não padronizam a produção vendem direto para a indústria. Não é a situação de Higor Freitas e Raíssa Valadão. Atual gerente-executivo da Associação de Produtores de Queijo da Canastra (Aprocan), ele preferiu vender mel com valor agregado e conectado à experiência turística com abelhas-sem-ferrão. Em janeiro, já está preparando o espaço para receber os visitantes. Hoje, dois municípios da região se destacam na produção de mel: Bambuí e Medeiros.

“Eu produzo mel puro, favos de mel e algumas variações do mel composto com castanha, coco, abacaxi e cremoso, para apresentar ao consumidor algo diferenciado”, lista. No apiário, 30 colmeias com 70 mil abelhas cada uma produzem entre 600 kg e 800 kg de mel por ano. “A gente viu um movimento que começou com o queijo e se espelhou no café, no vinho, no mel e no própolis verde. A Serra da Canastra é cada vez mais conhecida por seus produtos artesanais de qualidade”, destaca.

Vinho

Daniela de Freitas conecta vinho, natureza, hospedagem e gastronomia – Foto: Moradas da Serra / Divulgação

Enxergar a Serra da Canastra além do queijo também foi o ponto de partida para a empreendedora Daniela de Freitas estruturar a Vinícola Moradas da Serra, em São João Batista do Glória. Na gestão do empreendimento em parceria com o marido, Thiago Freitas, ela desenvolveu um modelo de negócio que conecta produção de vinhos de inverno, turismo de experiência e hospedagem.

“A proposta de valor da Vinícola Moradas da Serra está enraizada no terroir da Canastra. Oferecemos gastronomia mineira, queijos da região e o vinho produzido na vinícola. Buscamos proporcionar uma experiência enoturística que valorize a produção da vinícola e celebre o patrimônio cultural e natural da região”, explica. Localizada às margens da estrada Glória/Quilombo, KM 39, a produção do vinhedo segue a técnica da dupla poda, prática que permite a colheita no período do inverno.

Uma das casas de hospedagem na Vinícola Moradas da Serra – Foto: Moradas da Serra / Divulgação

A experiência enoturística foi desenhada para ser completa e imersiva. O percurso inclui os vinhedos, a adega e a degustação, além da possibilidade de hospedagem em três casas situadas na vinícola. “Desde a visita aos vinhedos até a degustação na adega, buscamos criar um ambiente acolhedor e que estimula a conexão com a natureza e com o vinho”, conta. Hoje, ela produz vinhos com a casta Syrah, e para 2026 estão previstos vinhos com Tannat, Pinot Noir, Marselan, Sauvignon Blanc e blenders variados.

A empreendedora lembra que a ideia de adquirir a vinícola, há dois anos, contou com o papel do Sebrae Minas como apoio decisivo para estruturar o negócio. “O suporte oferecido em termos de orientação técnica, capacitação em gestão de negócios e na elaboração de estratégias de marketing foi crucial para estruturarmos a Moradas da Serra de maneira sólida”, reforça.

Azeite de abacate 

A produção de abacates da Frutas Wolf – Foto: Reprodução / Instagram / @frutaswolf.agronegócios

Dos produtos da Canastra, o azeite é o único que ainda não tem uma produção local. O empresário Cláudio Woolf, de São Roque de Minas, faz uma parceria com a Fazenda Irarema, de Poços de Caldas, enviando os abacates e recebendo o azeite já processado. “Esse azeite de abacate começou a ser produzido há cinco, seis anos no Brasil. É uma coisa nova para a região”, pontua. Ele explica que o azeite de avocado é 100% natural, retirado da polpa do abacate, e entra no processo de maturação correto para extrair o azeite. “É um produto extremamente diferenciado em relação ao azeite de oliva”.

Para ser o primeiro território brasileiro com marca guarda-chuva, há muitos desafios pela frente. “É um processo que só está começando”, avisa Leonardo Mól. É necessário que haja, primeiramente, uma articulação política para elaborar uma legislação; depois, reunir a liderança de cada segmento em uma liderança regional; e, a partir daí, criar um padrão de processos para selar a qualidade dos produtos. Com todos os serviços certificados, eles podem ser comercializados em uma plataforma para esse fim. O projeto deve ser apresentado a lideranças políticas em meados de fevereiro.

O apiário da Raízes da Canastra – Foto: Sebrae-MG / Divulgação

Para João Leite, presidente do Sicoob Sarom, a cooperativa de crédito da Canastra, é preciso evoluir não só em tecnologia, mas em marketing, promoção, comunicação e inspeção. Com esses objetivos, foi criado em 2013 o Consórcio Intermunicipal da Serra da Canastra, Alto São Francisco e Médio Rio Grande (Cicanastra), hoje com 147 produtores registrados e atuação em 11 municípios. Ele fornece o selo de inspeção sanitária, certificando a qualidade do produto e garantindo a segurança do consumidor.

Serviço:

Cafés Cariama (café): Acesse Cafés Cariama ou @cariama–cafes
Moradas da Serra (vinho:) @vinicolamoradasdaserra
Raízes da Canastra (mel): @raízesdacanastraoficial
Sal do Engenho e Serjão da Canastra (charcutaria): @saldoengenhocharcutaria / @bravorocharcutaria
Frutas Woolf (azeite de abacate): @frutaswolf.agronegocios

Receptivos:

Canastrarte Turismo: Acesse Canastrarte ou @canastrarte
Tamanduá Ecoturismo: Acesse Serra da Canastra ou @serradacanastraeco
Vinicius Canastra Turismo: Acesse Vinícius Canastra Turismo ou @vinicius_canastraturismo 

Fonte: O Tempo

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