domingo, 31 maio 2020
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Entre carros e plantações, lobo-guará luta para sobreviver no que resta do Cerrado



Por Afonso Capelas Jr. | Fotos de Adriano Gambarini

Perda de habitat e atropelamentos são algumas das ameaças que o maior canídeo da América do Sul enfrenta.

O sol mal se esconde por detrás dos paredões do grandioso maciço da Serra da Canastra quando Bolt, criatura esguia e solitária surge à distância. Um pequeno ponto escuro a flanar mansamente em meio à penumbra que já ocupa boa parte de seu caminhar, no sopé da montanha. Bolt, um lobo-guará adulto, tem cerca de 85 cm de altura, aproximadamente 1,70 m de comprimento e pesa mais de 30 kg. É um dos mais robustos de sua espécie. O crepúsculo sinaliza o início da atividade diária dessa bela figura de movimentos elegantes, patas alongadas e pelagem marrom avermelhada. Depois de descansar durante o dia, a barriga ronca e Bolt sai em busca de alimento – em geral pequenos animais e vegetais como a chamada fruta-do-lobo que nasce nas lobeiras, arbustos típicos daquela região. A perambulação pode se estender por até 10 horas nos limites do Parque Nacional da Serra da Canastra, sudoeste de Minas Gerais, criado para proteger as nascentes do rio São Francisco, cachoeiras, campos de altitude e remanescentes do Cerrado.

Há cerca de 15 anos um grupo de pesquisadores coordenado pelo biólogo Rogério Cunha de Paula, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vem constatando que Bolt e os demais de sua espécie que ali vivem passaram a arriscar-se na busca por alimento além dos limites do parque nacional, próximo de propriedades rurais vizinhas da unidade de conservação. Ele e outros lobos-guarás vem sendo monitorados constantemente pela equipe do Projeto Lobos da Canastra, implantado em 2004 por Rogério de Paula e prontamente abraçado pelo Instituto Pró-Carnívoros e por acadêmicos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Brasília (UnB), Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Universidade de São Paulo e até mesmo do americano Insituto Smithsonian.

Além de Bolt, mais 77 lobos-guarás já foram capturados na Serra da Canastra e receberam colares radiotransmissores que permitem acompanhar a sua rotina. Os pesquisadores já sabem que o hábito adquirido pelos animais – e a derrocada dos biomas onde sobrevivem – pode representar um risco de extermínio da espécie.

Há muitas histórias místicas sobre o olhar encantado e hipnotizante do lobo-guará. Entre os xavantes, uma lenda conta de uma aldeã que, seduzida pelo animal, foge para a mata. Quando volta, maculada, os pais a jogam na fogueira a fim de tirar o fedor do lobo. O calor do fogo faz estourar o seio cheio de leite, que, por sua vez, molhou algumas árvores que passaram a produzir a seiva, utilizada como remédio e para adornos e cerimônias.
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI

Grande canídeo sul-americano

Maior canídeo silvestre da América do Sul, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) pode ser encontrado em grandes áreas abertas onde predomina a vegetação campestre no território da América do Sul, em biomas como o Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa, mais ao sul. As fêmeas geram até três filhotes a cada gestação e a expectativa de vida é de 12 a 15 anos. Na lista de espécies ameaçadas do Ministério do Meio Ambiente, o lobo-guará figura na categoria de Vulnerável, embora conste também no catálogo da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como Quase Ameaçada. Números estimados baseados em estudos de algumas áreas de ocorrência – caso da Serra da Canastra – contabilizam 24 mil indivíduos sobreviventes em todo o Brasil.

A maior população de lobos-guarás está na região no Cerrado: são perto de 14 mil indivíduos. A Mata Atlântica abriga 9,5 mil lobos e o pantanal 1,1 mil. Apenas 11 sobrevivem no Pampa. “Com a qualidade dos ambientes naturais reduzindo, o número de lobos-guarás também diminui. Muitos migram para outras regiões e morrem pelo caminho”, constata o biólogo Rogério de Paula. A expansão da fronteira agrícola e áreas de pastagens, o crescimento dos centros urbanos e zonas rurais e a mineração são algumas das principais causas da degradação de vegetação nativa.

O pesquisador reconhece que o futuro da espécie está totalmente conectado à manutenção das áreas de maior qualidade dos biomas e na recuperação da vegetação nativa. “Hoje temos uma situação muito pior para o lobo-guará do que sempre se acreditou”, comenta de Paula. “A tolerância da espécie a situações adversas permite que o lobo-guará ocupe áreas com o mínimo de condições.”

Normalmente solitários, os lobos-guarás se juntam para acasalar e criar família. Quando os filhotes estão pequenos, a mãe cuida deles na toca enquanto o pai sai para buscar alimento.
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI
Filhote de lobo-guará com cerca de 20 dias de idade. As crias nascem completamente pretas e adquirem a coloração avermelhada somente depois do segundo ou terceiro mês de vida.
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI

Áreas nessas situações, entretanto, são hoje muito escassas e pequenas no contexto do estudo da equipe de pesquisadores. Assim, se a velocidade de degradação do Cerrado e do Pampa, além da ocupação desordenada de áreas adequadas na Mata Atlântica continuarem no ritmo atual, a população de lobos-guarás estará cada vez mais reduzida. “Os caminhos em direção às extinções locais, como a observada nos campos sulinos, serão cada vez mais frequentes”, reconhece. As estratégias de recuperação e conexão de áreas adequadas são urgentes e necessárias para manter o lobo-guará como uma das espécies mais emblemáticas do Cerrado e do Brasil.

Projeto exemplar

A recuperação dos territórios do lobo-guará é um dos pilares do Projeto Lobos da Canastra. “Ao perder seus habitats, eles têm diminuída a qualidade de vida e a taxa de sobrevivência”, diz de Paula. “O estresse é potencializado provocando redução da reprodução e os animais tornam-se mais sensíveis a doenças e intempéries.” O projeto abraça outras atividades relevantes. Para além dos estudos de campo, há também um minucioso trabalho de educação ambiental entre a população da Serra da Canastra. Desde o início de suas atividades com os lobos da região em 1997, Rogério de Paula e seus colegas reconheceram a urgência de conscientizar os moradores – especialmente os fazendeiros das vizinhanças do parque nacional – para a importância da conservação desses animais. Aos olhos dos ruralistas, a espécie sempre representou uma ameaça constante a rondar as suas criações.

Com a degradação dos territórios naturais e a consequente escassez de alimento, os lobos se viram forçados a vasculhar o entorno do parque nacional em busca do que comer. Galinhas, por exemplo. Há, inclusive, relatos de indivíduos que adquiriram o hábito de vasculhar latas de lixo em busca de restos de alimentos. As visitas cada vez mais frequentes dos lobos-guarás às propriedades desagradavam os fazendeiros e os conflitos eram inevitáveis. No final da década de 1990 e início de 2000 a estimativa média era de seis animais abatidos por ano na região. “Hoje, a caça ao lobo ali é extremamente rara. O trabalho de conscientização com os proprietários incentivando a coexistência praticamente erradicou a matança dos lobos”, orgulha-se Rogério de Paula.

Estrada corta áreas de plantação no Cerrado. Uma das principais ameaças à sobrevivência do lobo-guará é o risco de atropelamentos.
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI
Segundo o ICMBio, a maioria dos lobos-guarás atropelados são subadultos em fase de dispersão. Estima-se que, em algumas populações, os atropelamentos reduzem entre um terço e metade da produção anual de filhotes.
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI

Essa vitória foi, inclusive, reconhecida internacionalmente como exemplar em programas de conservação com predadores. As informações científicas levantadas pelo Lobos da Canastra produziram estratégias de ação para a conservação da espécie, não só na região mineira, mas nacionalmente e em outros países como a Argentina e o Paraguai, onde os lobos-guarás são encontrados em menor número.

Tempos de fartura

Quando as áreas naturais eram mais profícuas os lobos-guarás fartavam-se de uma grande variedade de plantas e pequenos animais silvestres, fato que os estudiosos constataram em territórios de pouca interferência humana, como os parques nacionais da Serra da Canastra e das Emas, este em Goiás. Os guarás são os únicos canídeos de grande porte que não caçam em matilhas, nem comem grandes presas. Ao contrário, preferem uma rotina solitária e precisam de quantidades diárias abundantes de alimento a fim de saciar as necessidades energéticas e manter a saúde em equilíbrio. Animais mais fracos tornam-se vulneráveis, especialmente no mundo modificado dos homens. Com a proliferação de zonas habitadas e redução das áreas adequadas, é nas propriedades que conseguem o suprimento energético diário que lhes falta.

“Eles precisam procurar mais e reduzir a variedade alimentar”, diz Rogério de Paula, do ICMBio. “A fruta-do-lobo, espécie vegetal altamente adaptada que floresce em qualquer lugar e época do ano, adquiriu importância relevante na sua dieta. Ela é substanciosa e altamente energética.”

Rogério Cunha de Paula instala colar para monitoramento de um indivíduo por GPS. Biólogo, de Paula é analista ambiental do ICMBio e desenvolve pesquisas e projetos de conservação para os lobos-guarás há mais de 20 anos.
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI
Onívoro, o lobo-guará se alimenta de pequenos mamíferos e aves, mas uma de suas comidas preferidos é inclusive batizada em sua homenagem: a fruta da lobeira (Solanum lycocarpum), uma espécie arbustiva que cresce em ambientes áridos.

Do Projeto Lobos da Canastra nasceu outro programa de nome pomposo: O homem da Canastra e o lobo-guará – Estabelecendo um modelo de coexistência com a fauna e preservação do Cerrado. Criado em 2012, em linhas gerais, propõe fazer da população daquela região um exemplo de uso sustentável dos recursos naturais e de convívio harmonioso com o lobo-guará e outras espécies importantes da fauna, como a onça-parda (Puma concolor), a raposa do campo (Lycalopex vetulus) e a lontra (Lontra longicaudis).

Para alcançar os objetivos os colaboradores do projeto passaram a utilizar material de comunicação e atividades educativas nas escolas e áreas rurais da Serra da Canastra. Entre as atividades incluíram o Cine Lobo, sessões de filmes sobre os hábitos da espécie e bate-papos em reuniões comunitárias. Destinado a atender essas necessidades foi idealizado o selo Sou Amigo do Lobo. As ações extrapolaram os limites da Canastra e se tornaram um projeto nacional que inclui um site de divulgação das atividades – com informações em textos didáticos e imagens para crianças e adultos, além de um canal com vídeos no Youtube. Em outra frente de trabalho centenas de famílias de moradores rurais ganharam galinheiros bem estruturados construídos pelo projeto para proteger suas criações, incluindo um galinheiro comunitário para uso de mais de 70 famílias.

Fé na sobrevivência da espécie

Por todas as ações de conservação a esperança de sobrevivência do lobo-guará, a longo prazo, é muito forte na Serra da Canastra, crê o biólogo Rogério de Paula. “A região é fonte de novos indivíduos que vão se dispersando para colonizar mais áreas adjacentes. Essa colonização só dá certo se o ambiente em volta das áreas for altamente adequado”. O entorno do Parque Nacional da Serra da Canastra é destinado ao plantio de milho, café, cana-de-açúcar e soja em pequenas quantidades, além da base da economia da pecuária leiteira. Ou seja, campos naturais substituídos pela pastagem com gramíneas exóticas. Ainda que seja uma colcha de retalhos existem muitas áreas naturais misturadas com as modificadas dentro de pequenas propriedades rurais.

Lobo-guará em um área de campo limpo, uma das fitofisionomias do Cerrado, na região da Serra da Canastra, em Minas Gerais. 
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI
Área de Cerrado desmatada para dar lugar a plantações. A supressão de área nativa é um dos maiores problemas para conservação do lobo-guará. 
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI

A diversidade de tipos de ambientes, de acordo com o biólogo, é favorável à presença da espécie em grandes quantidades, numa região que detém a maior densidade populacional desses animais em toda sua distribuição. “A Serra da Canastra é uma das áreas mais importantes para os lobos em toda a América do Sul. Abriga uma unidade de conservação contornada por pequenas propriedades rurais de moradores que, hoje, permitem sua presença, convivendo em harmonia com a espécie”, observa Rogério. Ele acredita que, se o lobo-guará desaparecer em todas as outras regiões, um remanescente populacional tem chances de se manter na Serra da Canastra, salvando a espécie da extinção.

A dinastia Bolt

Bolt talvez seja o maior exemplo a confirmar as expectativas do biólogo. Recebeu esse nome por dois motivos distintos. Um deles foi homenagear o atleta jamaicano Usain Bolt, cujas características são a resistência e as pernas compridas como as do lobo-guará. O outro porque quando o animal foi capturado pela primeira vez, em 2013, chovia torrencialmente na Serra da Canastra, com grande incidência de raios (bolt, em inglês). “Na noite em que Bolt caiu na armadilha brincamos dizendo que ele nos foi enviado em um dos raios”, relembra Rogério de Paula.

De todos os exemplares monitorados pelos pesquisadores do Projeto Lobo da Canastra Bolt foi eleito o mais simbólico pela persistência. É também o maior macho em peso e altura já capturado pela equipe em toda a América do Sul. Ao rastrear via rádio-colar a rotina de Bolt em 2014, os pesquisadores notaram que ele havia se fixado em determinado ponto da Canastra por cerca de 15 dias. “Achamos que tinha morrido, porque ele sempre foi muito ativo. Depois passou a se movimentar um pouco a cada dia. Algo estava errado”, pensou Rogério de Paula. Ao recapturá-lo, oito meses mais tarde, para a troca da bateria do colar radiotransmissor, a constatação: uma das patas fora quebrada abaixo do tornozelo e estava calcificada dificultando seu perambular.

Lobo-guará em trecho de campo rupestre na Serra da Canastra, ecossistema muito favorável para a presença dos animais.
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI
Com uma audição muito aguçada, as longas orelhas se movimentam independentes entre si, como antenas parabólicas. 
FOTO DE ADRIANO GAMBARINI

Mesmo assim, Bolt conseguia descer diariamente do alto do parque nacional, por um caminho pedregoso e extremamente íngreme, para além dos limites da unidade de conservação, sempre margeando o rio São Francisco. Estava explorando áreas próximas às fazendas. Mancava muito, deixando clara sua insistência em conservar-se vivo a todo custo. Buscava alimento nas fazendas – mangas, bananas, goiabas e galinhas, presa fácil para os lobos-guarás.

Era a época em que Bolt, assim como os demais companheiros solitários, deveria estar capturando animais silvestres. Com a fratura, porém, não tinha mais a agilidade necessária para a caça. Viu-se obrigado a atravessar propriedades rurais para conseguir de comida, mesmo tendo de arriscar-se em meio a personagens ameaçadores para um lobo-guará: humanos, cães, veículos. Caminhando com dificuldade em busca da vida, ampliou ainda mais seu território de exploração.

Em 2015 a bateria do rastreador de Bolt acabou e ele desapareceu para sempre do radar dos biólogos. Era já um idoso com 10 ou 12 anos de idade, coxeando muito, com secreção nos olhos e dentes gastos. Teria morrido? Sua fêmea, entretanto – carinhosamente batizada de Rose e rastreada há anos – foi capturada, à época, para uma avaliação veterinária. Estava prenha e lactante. Bolt deixou herdeiros na Serra da Canastra. Sua valiosa parcela no esforço de garantir a longevidade da espécie.

Adriano Gambirni é fotógrafo e coautor do livro Histórias de um lobo. Afonso Capelas Jr. é jornalista. Ambos são colaboradores da National Geographic Brasil.

Fonte: National Geographic

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