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terça-feira, 12 novembro 2019
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Paisagem da Serra da Canastra fica marcada pela passagem de jipes e motos. — Foto: Acervo Parque Nacional da Serra da Canastra/Icmbio

Ação predatória de trilheiros e jipeiros causa problemas ambientais na Serra da Canastra



Número elevado de motociclistas tem assustado os animais, causado erosão e aberto clareiras em área de preservação permanente.

Por Jonatam A. Marinho — São João Batista do Glória, MG

O aumento do número de trilheiros e jipeiros na região da Serra da Canastra tem preocupado autoridades ligadas ao meio ambiente em São João Batista do Glória (MG). Para os fiscais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Icmbio), essa prática está descontrolada e tem causado sérios danos ambientais ao Parque Nacional.

O técnico ambiental e gerente de proteção Carlos Henrique Bernardes conta que a grande quantidade de veículos e seu trânsito continuado têm causado erosão dos solos e aberto clareiras em locais onde havia vegetação nativa.

O Secretário de Turismo de São João Batista do Glória, Leandro Costa Garrossino, afirma que o problema é tão grave que está comprometendo a prática de esportes de baixo impacto ambiental como corrida e mountain biking.

“A quantidade de motos de trilhas no município está demais. Está atrapalhando a realização de eventos esportivos. Tem lugar em que a bicicleta passava e que agora, por causa das motos, não passa mais. Então é uma questão super importante porque, da forma como ocorre, não poderemos mais ter os eventos esportivos de baixo impacto, como corrida e bicicleta, de tanta trilha de moto que está destruindo a serra”, diz.

Motos de trilha deixam marcas de erosão no solo na Serra da Canastra.
Foto: Acervo Parque Nacional da Serra da Canastra/Icmbio

O secretário diz ainda que a Prefeitura Municipal já foi notificada pelo Ministério Público Federal sobre esse problema.

“A Prefeitura faz um trabalho de conscientização junto à sociedade sobre o uso das trilhas e o comportamento das motos dentro da cidade. Temos o cuidado de não apoiar nenhum evento que utilize veículo motor. Não estimulamos e nem divulgamos nada que tenha prática esportiva motorizada. Buscamos modalidades de menor impacto e que possibilitem apenas o contato entre o homem e o meio ambiente”, explica Garrossino.

A Polícia Militar também tem contribuído de forma indireta para conter o número de motociclistas na cidade. O sargento Leandro Marcos do Nascimento explica que como as motos de trilha não são autorizadas a transitar pela cidade, os motoristas podem ser autuados e as motocicletas apreendidas.

“Algumas operações estão sendo feitas para acabar com o trânsito desses veículos na cidade. Por lei, essas motos não podem circular porque não possuem placas, licenciamento e nem equipamento de segurança”, fala.

Ele também ressalta que, esse ano, foram apreendidas apenas quatro motos contra 100 no ano passado, o que mostra que a ação da polícia tem diminuído o número de veículos dentro do município.

Ainda sobre a notificação, o Gtentou contato com o Ministério Público Federal em Passos, mas não obteve retorno.

Marcas de trilhas abertas em local de preservação na Serra da Canastra.
Foto: Acervo Parque Nacional da Serra da Canastra/Icmbio

A palavra do Icmbio

Para o gerente de proteção do Parque Nacional da Serra da Canastra, Carlos Henrique, os danos ambientais atingem diretamente os animais.

“Imagine um animal nativo como um tamanduá-bandeira ouvindo o barulho de 20, 30 motos. Isso causa estresse a esses animais e faz os pássaros abandonarem os ninhos e filhotes. Isso, fora o dano sobre a vegetação nativa do serrado. Quando passam 50 motos de forma continuada no mesmo local, a vegetação não consegue se regenerar”, afirma.

Carlos diz também que os trilheiros saem das estradas onde o transito é permitido dentro do parque e entram em área de vegetação nativa de cerrado. Os motociclistas atingem regiões de morro que são facilmente afetadas pela ação erosiva das enxurradas.

“Isso afeta também a paisagem, o aspecto cênico do lugar, que fica marcado por rasgos”.

Marcas de trilhas abertas em local de preservação na Serra da Canastra.
Foto: Acervo Parque Nacional da Serra da Canastra/Icmbio

Invasão de terras

Nos arredores do Chapadão da Canastra, os fazendeiros também são incomodados. O gerente de proteção explica que os motoqueiros entram nas terras sem autorização, deixam a porteira aberta e cortam as cercas – o que faz com que os animais fujam. Ele cita também que um grande números de motoqueiros pode intimidar qualquer produtor rural a deixá-los passar.

“Não somos contra o turismo de motos na Serra da Canastra. Só não queremos que continue como está: totalmente desordenado e invadindo áreas de preservação da vegetação nativa. No nosso entendimento, a moto pode andar apenas pelas estradas, sem sair delas”, defende.

Perguntado sobre o perfil ideal do motociclista, Carlos afirma que é “aquele turista que busca se informar primeiro e que, ao entrar no parque, sabe onde quer, pode e deve ir. Sabe se o local é ou não adequado para trilhas’.

Marcas de trilhas abertas em local de preservação na Serra da Canastra.
Foto: Acervo Parque Nacional da Serra da Canastra/Icmbio

Conscientização

Tanto a Polícia Militar, como o Icmbio e a Prefeitura Municipal de São João Batista do Glória citaram que será realizada um reunião em novembro deste ano para discutir os danos ambientais causados por motos nas áreas do parque nacional.

“Todos que trabalham com pousadas, guias, prefeitura e atores ligados ao turismo, irão discutir essa explosão do número de trilheiros. Outros parque e reservas estão tendo o mesmo problema no país com a intensidade que vem ocorrendo aqui”, conta Carlos.

O Icmbio diz que irá orientar as pessoas num primeiro momento e depois fiscalizar.

“As pessoas que circulam de moto de forma predatória na região da Canastra podem ser enquadradas no Decreto Federal 6.514 por vários crimes. Mas, praticamente, seriam autuadas pelos danos causados ao parque nacional que é uma unidade de preservação permanente”, alerta.

Marcas de trilhas abertas em local de preservação na Serra da Canastra.
Foto: Acervo Parque Nacional da Serra da Canastra/Icmbio

Ainda segundo o gerente de proteção, os turistas que praticam trilhas são pessoas com alto poder aquisitivo. Elas procuram guias locais que acabam levando os visitantes aos lugares proibidos. Perguntado pelo G1 sobre a razão desses guias não serem instruídos de forma correta, ele respondeu que muitos simplesmente não têm preocupação ambiental.

“Já conversei com vários guias. Eles dizem que vão levar ao lugar certo. Alguns já foram notificados. Mas, por redes sociais, vimos esses mesmos guias levando turistas onde não deveriam levar. É uma coisa que a gente não entende, se é falta de entendimento, má vontade ou porque não se importam. É complicado”, afirma.

Carlos explica ainda que na cidade “não existem guias credenciados, somente pessoas com licença para operar veículos 4×4 na área do parque”.

O Parque Nacional da Serra da Canastra

Vista da Serra da Canastra. — Foto: Acervo Parque Nacional da Serra da Canastra/Icmbio

O Parque Nacional da Serra da Canastra foi criado pelo Decreto nº 70.355, de 3 de abril de 1972. A área é de 200 mil hectares e pode ser dividida em áreas públicas e particulares. Cerca de 83 mil hectares do chamado “Chapadão da Canastra” são totalmente controlados pelo Icmbio e são onde as motos não entram.

O restante, 117 mil hectares, é formado por propriedades rurais que não foram desapropriadas. Segundo Carlos, há áreas particulares nessa região que já são da União, porém ficam cercadas de outras que não são. Mesmo assim, essa área conhecida como região da Babilônia, tem restrições ambientais conforme a legislação de uma unidade de conservação.

O Parque Nacional está situado ao norte do Rio Grande, próximo ao Lago de Furnas. É uma área onde predomina a vegetação de cerrado.O local abriga a nascente histórica do Rio São Francisco, a cachoeira Casca d’Anta com 186 metros de altura, dois sítios arqueológicos. O parque ainda conta com muitas outras cachoeiras.

Fonte: https://g1.globo.com

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